terça-feira, 20 de março de 2012

macaco, praia, carro, jornal, tobogã / eu acho tudo isso um saco...

vestido de palhaço
para a festa do existir;
o existir não tem graça
e a platéia sabe disso/
mas todos se esbaldam em palmas e assovios e urras
eles querem bis
palavras, palavras
deslocadas e mutiladas
eles querem mais
eles não querem pensar em suas vidas
(novidade: nem o palhaço, nem o palhaço...)

segunda-feira, 19 de março de 2012

pergunta errada

se eu acredito em deus?
mas que valor poderia ter minha resposta, afirmativa ou não?
o que importa é saber se deus acredita em mim
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quarta-feira, 14 de março de 2012

complo interno

meu coração tá dando pinote
aponta um gatilho contra meu próprio peito
e disse não ligar pra morte
nem se o sangue cair
disse não se importar
se ele parar de bater
e disse mais um monte de coisa que eu fiz questão de não ouvir
abaixa esse cano, coração
segue batendo
essa já é uma puta vingança

sábado, 10 de março de 2012

vai dormir, menino

o sentimento de tranquilidade, para algumas pessoas, é não sentir intranquilidade; assim como para outras sentir-se bem é apenas não sentir-se mal. qual seria a palavra correta para significar o oposto de dor? da mesma forma como não existem sinônimos perfeitos, também, e com mais razão, não existem antônimos perfeitos, não existem coisas perfeitamente iguais nem perfeitamente opostas. assim é a vida, numa ilha de crocodilos ou na cidade de são paulo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

vem poeta

calada e muda
que mesmo sem fome
come minha palavra/
vem e prova minha boca no teu ouvido

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

porra

pela primeira vez não tenho o que dizer
e isso é bom
um silêncio enfim

domingo, 26 de fevereiro de 2012

ponderações # 67

enxergo a essência do bem
e a essência do mal
em mim
e pensamentos amorosos se misturam facilmente a impulsos cruéis
como aquele que enxerga deus numa margarida do campo
vejo em mim o maior inimigo de mim
e o maior amigo que eu posso ter
vejo as soluções invisíveis que não posso tocar
e vejo também todos os problemas que eu mesmo criei
me sento ao pé de todas as coisas materiais negadas
e imagino uma vida em que se possa morrer tranquilamente
as coisas a minha volta não param de cair
uma constante queda permeia tudo que um dia esteve imóvel
o mundo gira
mas só as princesas são capazes de sentir a rotação
o mundo parece encontrar sua paz em domingos ensolarados
o silêncio parece alcançar sua catarse
e o único som que se ouve é de uma vitrola teimosa
insistente em tocar as músicas de um passado construído disco a disco
como eu disse
em mim mora aquilo que me convém chamar de meu
dos sonhos tenebrosos
aos incríveis ataques de ternura e compaixão
às vezes me odeio simplesmente pelo modo que o espelho devolve meu olhar
às vezes eu encontro uma certa iluminação no meu ser envolto em quietude
e assim os dias se fazem
e assim as noites são dormidas
no seio do caos
nos braços da ordem
esperando que tudo desabe
esperando que os cacos da memória formem novas imagens
esperando que os fragmentos de presente sejam consistentes e alegres
esperando ser mal interpretado e amado do jeito que for
esperando que a cabeça não se perca em ponderações infinitas
uma vida de esperas sim
mas
principalmente
uma vida que acontece nos intervalos disso tudo
independente do que eu faça
ou deixe da fazer
os detalhes são primorosos
e é uma pena que na maioria das vezes estejamos tão ocupados buscando o significado do significado
eu poderia interferir ou tentar entender
mas gosto da idéia de ser um espectador de mim mesmo

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

quinta-feira de pontas

café fumegante
cigarro no beiço
cruzadinha no colo
e menina bonita do outro lado da linha dizendo alô

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

mais um livro que eu não vou escrever

Eu já tinha descartado o suicídio da minha vida há muito tempo. Ele não resolveria nem metade dos meus problemas. A metade que eu conheço. Mas é a outra metade que me preocupa. São os problemas que eu ainda não inventei. Sempre achei janelas atrativas e o salto um ato de altruísmo completo. Mas não, não teria culhões. Erraria no pé, cairia todo torto, desfigurado, caixão lacrado, enterro às escuras. Quero que as pessoas olhem bem pra mim uma última vez. Quero que elas tentem com afinco entender o que estão fazendo ali, no meu enterro, quando em vida nunca ouviram minhas súplicas por atenção. Nunca considerei viadutos, pontes e elevados. A vida na cidade já é um inferno. Um suicídio assim em via pública iria causar buzinas demais, trânsito demais, atrasos demais, descontentamento em geral, e disso a cidade já estava cheia. Eu também já tinha descartado o narrador em primeira pessoa e já tinha tentado a esquizofrenia de falar de mim na terceira pessoa. Não deu certo, eu ficava vesgo e confuso e tinha pesadelos com a terceira pessoa indo atrás da primeira com uma faca e no meio de toda essa confusão eu acordava com a segunda pessoa do singular gritando no meu ouvido.
Nessa onda de descartes, descartei também o amor. Se bem que acho que foi ele que me descartou. Mas isso não importa. O amianto também é perigoso e quase ninguém toma cuidado com ele. Eu tinha resolvido ficar longe do amor e de suas armadilhas. São muitas e se espalham pelo seu caminho com uma desenvoltura de praga. O amor é um amontoado de minas terrestres que a gente mesmo coloca no nosso quintal. Não só isso. O amor é muito bonito também se você não importar em perder uma perna ou um braço pelo caminho. Sair vivo do amor é um milagre, quase ninguém sai vivo dele. Olhe pra cidade, olhe pra suas festas, seus galpões amontoados de gente procurando gente para reprodução: zumbis do amor, cadáver em cima de cadáver. O amor é nojento, camarada, mas mesmo assim continuam anunciando ele como a salvação da humanidade. Se a humanidade quisesse realmente ser salva, a gente começaria matando a nós mesmos, o que me remete ao começo dessa joça, o suicídio, o qual eu já havia descartado.

bloco de rua

e então você tá ali, parado, segurando uma lata de cerveja super inflacionada e quente. todo mundo parece procurar alguma coisa. todo mundo olha pros lados. todo mundo nessa conduta incansável de caçador. as pessoas ainda estão sóbrias pra adimitirem que serão caçadas. algum idiota enche teu ouvido com espuma de carnaval. um outro bêbado derruba seu cigarro e quando vai pedir desculpas, pisa nele e termina o serviço.
e então você tá ali, se perguntando exatamente isso, o que eu tô fazendo ali? a resposta é sem dúvida mais assustadora do que a pergunta. a resposta não existe. você tá ali porque sim. porque é carnaval e você queria ver gente, mas tanta gente assim? na fila do banheiro químico uma mulher bêbada presenteia todos os homens com uma mão boba no pinto. me sinto parte da multidão, mas esse sentimento não dura. quando o pensamento suicídio se apodera de mim, uma espécie de natalie portman portenha se aproxima,
pega na minha mão,
me chama de bonito
e eu quase acredito
e quase consigo sorrir
mas então aparece seu marido e a puxa pela mão gritando que já deu.
closer, eu pensei, perto demais. foi quase, o suficiente, eu diria.
abandonei a multidão e vaguei pro outro lado, pra longe, titubeando entre gastar meu último troco voltando pra casa ou comprando cigarros;
optei pela fumaça
fazia uma madrugada quente,
mas no necrotério são paulo é sempre frio

uma coisa te digo, garoto

deus te deu um pinto e um cérebro
mas não deu sangue suficiente para usar os dois ao mesmo tempo
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